O juiz Paulo de Toledo Ribeiro Junior, da 4ª Vara Especializada de
Direito Bancário de Cuiabá (MT), se valeu da doutrina sobre o instituto
do adimplemento substancial para impedir o banco Toyota de apreender um carro alienado pela instituição com seis parcelas em atraso. Ainda cabe recurso da decisão.
No
Direito Civil, o termo adimplemento significa o pagamento efetuado pelo
devedor de uma obrigação, pelo qual se satisfaz a dívida com o credor. O
juiz explica que a teoria do adimplemento substancial surgiu na
Inglaterra, no Século XVIII,
como reparação das injustiças praticadas nos julgamentos dos
tribunais. Segundo ele, os tribunais defendiam de forma absoluta o direito do credor
de extinguir o contrato quando constatado a falta de pagamento mesmo se
o devedor já havia cumprido a maior parte de sua obrigação.
Atento ao instituto, o juiz derrubou liminar concedida ao banco, com pedido de busca e apreensão,
para livrar o autor de perder o seu bem com mais de 90% dos valores
pagos. O carro, que foi alienado pela instituição financeira, foi
financiado em 36 parcelas e restavam apenas as últimas seis para ser
quitado. Como o cliente atrasou o pagamento, o banco recorreu à Justiça
para ter o carro de volta.
O autor, por sua vez, também buscou
auxílio do Judiciário. No pedido, ele alegou que o bem estava quase todo
quitado e pediu para afastar a liminar que concedeu a busca e apreensão
do veículo.
Ao analisar o pedido, o juiz destacou que, seguindo os rigores do diploma legal,
a medida a ser tomada deveria ser manter a liminar concedida ao banco
“e consolidar a posse e a propriedade nas mãos do bem, haja vista que a
lei é clara nesse sentido”, mas acrescentou que isso não é fazer
Justiça. “Nem sempre devem ser seguidos os rigores da lei, sob pena de
ferir princípios constitucionalmente tutelados, que como magistrado,
devo observar no sentido de prioridade máximo como um juiz ativo”,
destacou.
Paulo de Toledo registrou que o contrato foi adimplido
substancialmente, não podendo o autor simplesmente perder as parcelas
pagas e ter o bem retirado do seu patrimônio. Motivo: já pagou 30 das 36
parcelas. Ele acrescenta que, no adimplemento substancial, é necessário
avaliar se a relação obrigacional concreta foi atingida, isto é, se o
contrato atingiu seus objetivos. “A relação obrigacional complexa exige a
satisfação dos interesses do credor, porém tem que se levar em
consideração, também, os interesses do devedor, de acordo com a boa-fé”,
fundamentou.
Ainda segundo o juiz, o banco deveria ajuizar outros
tipos de ação para satisfazer seus interesses como execução de
contrato, perdas e danos ou até mesmo ação de cobrança. “Assim, não
merece outro desfecho senão assegurar ao autor, em respeito ao princípio
da boa-fé objetiva e a vedação do enriquecimento ilícito do credor, a
manutenção do bem em sua posse”, registrou o juiz ao suspender a liminar
de busca e apreensão.
O juiz também declarou extinto o processo
com resolução do mérito, nos termos do artigo 269, inciso I, do Código
de Processo Civil e condenou o banco a pagar as custas processuais e
honorários advocatícios fixados em R$ 2 mil.
Decisão na íntegra: http://s.conjur.com.br/dl/sentenca-teoria-adim.pdf
Fonte: http://www.conjur.com.br/2009-ago-24/banco-nao-apreender-bem-alineado-foi-todo-quitado
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